Quem não andou em promiscuidade com seus fantasmas e abismos está condenado a viver em sonho coletivo; capturado pelo cotidiano jamais pressintirá a estranheza da vida, pois o Absurdo é a faísca do atrito entre a alteridade de dois mundos: apenas se afogando nas próprias correntezas se poderá olhar para os outros com espanto, admirando-se de existir e de permanecer existindo, no entretempo de duas noites. É preciso se deixar levar... é preciso que a mão próxima sirva de carinho, afago para a pele...que passa: nunca de galho a que se agarre.
É preciso ser Ofélia: se ofelizar.
Solipsismos
domingo, 23 de agosto de 2015
sábado, 22 de agosto de 2015
Em dias de ruído excessivo, seja de trânsito ou de vozes virtuais, Arvo Pärt ensina o reconcílio com o silêncio. Será este um caminho para nossa solidão?
Este mar, este deserto, este céu crepuscular...tudo a ela nos convida.
Sobretudo este céu, onde despontam as primeiras estrelas exiladas do cotidiano, céu que anuncia a iminência de uma noite imensa, obscura e ancestral; como se a nos chamar em desafio: suportarão permanecer? E sozinhos? Possuirão pulmões para este ar?
Pois, se olhares demoradamente para este céu, notarás que não se trata de nenhum céu, antes, de um abismo; antes, de um universo: imenso...
...e real.
Este mar, este deserto, este céu crepuscular...tudo a ela nos convida.
Sobretudo este céu, onde despontam as primeiras estrelas exiladas do cotidiano, céu que anuncia a iminência de uma noite imensa, obscura e ancestral; como se a nos chamar em desafio: suportarão permanecer? E sozinhos? Possuirão pulmões para este ar?
Pois, se olhares demoradamente para este céu, notarás que não se trata de nenhum céu, antes, de um abismo; antes, de um universo: imenso...
...e real.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Sobre o amor, com amor.
Te amo.
Mas o quê em ti eu amo? O que tu és para além da pele branca e lisa, da elegância do vestido, do sorriso adocicado? O sorriso é doce por tua doçura? ou tua doçura é efeito de teu sorriso, sardas e pequenos olhos cintilantes?
No espelho, o que tu vês? Acaso sorrirás diversamente para outros? Então, quem és? O que há em ti de verdadeiro e em si, por trás da pele branca e das pequenas sardas, que seja inerente e invariante para qualquer um? Ou melhor, a despeito de qualquer um? Como tu és quando ninguém te olha? Como és aos olhos de Deus? Mas se Deus não há...meu deus!, que poderia ser além de um jogo multifacetado de espelhos, vertigem de aparências?
E tu, como te vês? Enquanto estás comigo, por meus olhos? Acaso gostas tanto de meus olhos e, por isso, de mim e de minha companhia? Amor narcísico por dois belos lagos?
E eu, que amo em ti? Teus braços macios, pescoço macio, colo macio, ventre macio? Corpo aveludado, acolchoado, pré-aquecido à 37ºC, liso, sensível, às vezes idealmente úmido, repleto de formas côncavas feitas especialmente para acolher um rosto, um corpo, um pênis? (desculpe a crueza, não devemos ser puritanos depois de ler Lawrence, devemos ser puros). Minha pequena almofada platônica, oásis no deserto do real, planejada para me acolher e a mim se fundir, fazendo-nos crer que o cosmos é um grande e aconchegante útero, morno e equalizado como apenas Jung e Paulo Coelho poderiam acreditar? Pequeno leito para um amor burguês? Canto narcótico de sereia para uma saúde gorda e sedentária, saúde de escravo, convalescente, debilitada, pequeno vírus semi-vivo, encapsulado, constantemente à espreita de um corpo morno em que possa se alojar, desfazer as malas, sentir-se em casa e declarar propriedade?
Mas se perco o telhado, ganhando as estrelas, se volto às estepes, amando o vento frio que purifica a face, o peito e a alma, e se, olhando pra ti, ainda percebo te amar, o quê, em ti, amo? Os olhos, as sardas, os cachos? O nada que se esconde por detrás da profundidade da pele, dos cílios, do esmalte? Ou a imagem de pessoa que crio ligando os pontos que vão da mão à orelha, da orelha ao umbigo e do umbigo às coxas, como em almanaques infantis? Bela figura idêntica a si, fotografia comestível, escultura estática, beleza apolínea de mármore grego e macio. Mas então, se te mexes e com outros te desalinhas, que angústia que dá, ver minha miragem perdida! Reflexos de olhos, dentes e unhas se refletindo alhures em brilhos distintos, às vezes mais agudos, estridentes- de mau gosto, penso eu, mas é apenas minha saúde fraca que reclama, aflita. Aflita de se ver abraçando uma miragem, aflita de morte, de saber só haver miragens e água corrente e areia de dunas, tudo escapando entre os dedos, os próprios dedos se escapando de mim. É a vida que nos possui, nos pulveriza e mistura e implode e digere.
Viver não é tarefa de capitalista, de proprietário, de firma reconhecida em cartório. Quantos subterfúgios para nos livrarmos da angústia da noite, do desobramento, da falta de útero, do silêncio de Deus: o espaço, dizem, não reproduz som, apenas o simulacro de estrelas extintas, às vezes borradas por negros buracos- como se um demônio insatisfeito apagasse, com um só pequeno gesto da ponta do dedo indicador, milhões de galáxias, vida fosforecente, caldeirão exuberante de poeira estelar.
Mas, minha linda amiga, o que amo em ti, além da beleza de teus brincos- e quase me constranjo de buscar um final feliz-, é também o nada por trás dos dois furos de teu semblante, o mistério de teus ossos, o fundo de tua garganta onde uma luz se extinguirá, a incógnita hamletiana por trás dos sorrisos e cachos e olhos, o nada que esconde e que comigo compartilha, tua solidão ontológica, tua língua portuguesa, a oportunidade que me dá de isto lhe escrever, o cuidado que me concede quando lês as palavras abandonadas por meus dedos, como quem segue as pistas deixadas por um animal perdido, as migalhas de um qualquer João ou uma qualquer Maria, o fio de Ariadne de um habitante do labirinto circular e sem saída de nossas vidas, cuja única certeza é o encontro derradeiro com as garras do minotauro- ou nem isso.
O que amo, também, em ti, para além da beleza, é a transmutação da solidão em solidão compartilhada, fornecendo potência para traçar com mais coragem um caminho errante de nômade solitário.
Te amo assim, paradoxalmente,
meu vazio, minha amiga, minha mão extendida, minhas miragens reflexas de sorrisos, olhos e espelhos, tudo isso que se esconde sob o significante arbitrário de teu nome, último recurso para lhe agarrar, aprisionando teu fluir melífluo de puro devir em uma imagem sonora.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
"Dizemos que o céu é azul. Mas o que é o céu, para além do azul? À noite quando olhamos para o alto, não vemos o céu, o que vemos é o universo- imenso..." (pequeno momento poético em uma aula sobre Kant)
"(...)
Mas ¿qué mucho que yo perdido ande
por un engaño tal, pues que sabemos
que nos engaña así Naturaleza?
Porque ese cielo azul que todos vemos,
ni es cielo ni es azul. ¡Lástima grande
que no sea verdad tanta belleza!"
(Leonardo de Argensola)
sábado, 1 de setembro de 2012
Tateando
À Tatiane
A verdade é que te queria
sem acordar os
passarinhos,
ou escandalizar
e perturbar
os seus vizinhos.
"A melhor noite do mundo",
"a mais inesquecível",
dentre tantas coisas,
deixo para as outras,
para as tantas outras.
Queria era decorar o cheiro
dos seios,
dos fios
de cabelo,
da palma
das mãos.
Queria era descobrir texturas
- as menos privilegiadas -
que permanecem esquecidas
por detrás do cabelo,
entre as curvas
ao fundo do umbigo
e ao lado do sexo,
quando ninguém olha
para o ao lado
diante do sexo.
Pediria paciência
para essa inspeção
de menino - tão
curioso - diante
de ouro - tão
branco e suave -
em que cada moeda
é tão valiosa
como outra
qualquer.
Muito foi a espera
para essa mão tão tímida
tatear, tão cega,
esse mistério
de um corpo
que abriga
tatiante mulher.
Como explicar a relação
dessa carne alva
morna e macia
com estes sorrisos
que alegram a alma
e dizem carinhos
que florescem os dias?
Como explicar os poemas
que saem dos lábios
de carne vermelha
cujo som provém
deste pescoço
que atrai
suspiros
e cheiros
que o corpo arrepia?
Como dedilhar
matéria tão
física que faz ressoar
na alma, escondida,
canções, melodias
como as trago também
por detras dos dedos?
Como entender
o suspiro
que vem
confirmar
a nota escondida
deste instrumento
que é a um só tempo
matéria, amor, melodia,
canção, companhia?
A verdade é que te queria
sem acordar os
passarinhos,
ou escandalizar
e perturbar
os seus vizinhos.
"a mais inesquecível",
dentre tantas coisas,
deixo para as outras,
para as tantas outras.
Queria era decorar o cheiro
dos seios,
dos fios
de cabelo,
da palma
das mãos.
Queria era descobrir texturas
- as menos privilegiadas -
que permanecem esquecidas
por detrás do cabelo,
entre as curvas
ao fundo do umbigo
e ao lado do sexo,
quando ninguém olha
para o ao lado
diante do sexo.
Pediria paciência
para essa inspeção
de menino - tão
curioso - diante
de ouro - tão
branco e suave -
em que cada moeda
é tão valiosa
como outra
qualquer.
Muito foi a espera
para essa mão tão tímida
tatear, tão cega,
esse mistério
de um corpo
que abriga
tatiante mulher.
Como explicar a relação
dessa carne alva
morna e macia
com estes sorrisos
que alegram a alma
e dizem carinhos
que florescem os dias?
Como explicar os poemas
que saem dos lábios
de carne vermelha
cujo som provém
deste pescoço
que atrai
suspiros
e cheiros
que o corpo arrepia?
Como dedilhar
matéria tão
física que faz ressoar
na alma, escondida,
canções, melodias
como as trago também
por detras dos dedos?
Como entender
o suspiro
que vem
confirmar
a nota escondida
deste instrumento
que é a um só tempo
matéria, amor, melodia,
canção, companhia?
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Ser
Uma gota que,
em algum lugar do espaço-tempo,
foi lançada, individualizada, e,
deslumbrada, sobe, esperando,
atônita, a vertigi
nosa
queda
n'oceano
em algum lugar do espaço-tempo,
foi lançada, individualizada, e,
deslumbrada, sobe, esperando,
atônita, a vertigi
nosa
queda
n'oceano
Carloca
Tu que mudaste tantas vezes a hora do sol se pôr,
Cheia de olhos, gestos, ondas, ventania,
Invadiste e tragaste nossa mansa calmaria...
Arrancou-nos da Terra da Monotonia,
Afogando doce morfina em cada suspiro,
Na miríade onírica da vida...
Em seu redemoinho guiou-nos pela mão,
Mas na última curva da volta,
Em derradeira agonia...
Findou-se a fantasia.
Cheia de olhos, gestos, ondas, ventania,
Invadiste e tragaste nossa mansa calmaria...
Arrancou-nos da Terra da Monotonia,
Afogando doce morfina em cada suspiro,
Na miríade onírica da vida...
Em seu redemoinho guiou-nos pela mão,
Mas na última curva da volta,
Em derradeira agonia...
Findou-se a fantasia.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Insônia
Portas abrem-se para os desvãos de meu ser e, abertas, só servem de caminho a meu sono que se vai, deixando-me lúcido e só.
Primeiro um tinir agudo, depois se batem com força. E a cada barulho metálico sobressalta-se minha alma sonolenta.
Um doce devaneio de que alguém vem para mim, logo seguido da consciência do tempo-espaço reais, irreversíveis: eu, sozinho, um quarto escuro, mobília antiga, paredes finas, uma porta leve a dar para um dos labirínticos corredores desse hotel barato; trinta e cinco andares de solidão. Hóspedes vem e vão, andares acima ouve-se um grito, talvez uma prostituta alcolizada, talvez uma gata no cio. Uma velha caixa d`agua ronrona em baixo contínuo e pneus de carros derrapam em cinzas sons.
Uma fresta de luz entra pela ampla e enferrujada janela de vidro, torna visível o quarto para meus olhos já acostumados à escuridão. Cerro as pálpebras para não ver, quero esquecer-me, refugiar-me na negritude dos vazios internos.
Reencosto o rosto no travesseiro, tento em nada pensar, vozes e imagens ecoam cada vez mais distantes e irreais, um latido lembra minha infância, o sono vem, adormeço...Por pouco tempo. Novamente uma porta se abre. Mais um sobressalto de esperança, novamente o sono se vai.
A cada tinir de chaves iludo-me de que chega uma visita. Em princípio o barulho se mistura com um início de sonho, mas o desejo de que seja real acaba por trair-me: temo que dormindo não a possa receber, e desperto.
Quem espero afinal? Uma amada antiga que anda perdida nas ruas de qualquer cidade grande, a voz otimista de uma mãe que já faleceu, um anjo que me anuncie um sentido plausível para todo o sofrimento ou console-me com promessas de um paraíso em que já não creio?
Vindas da porta, duas bichas gritam histericamente, os passos se aproximam para logo se afastarem, chegam-me os últimos ecos e novamente estou só.
Vou à janela, olho, mas o céu não tem estrelas, nenhum rouxinol canta a eternidade.
Vinte andares abaixo dorme um mendigo na calçada fria dessa noite invernal. Um carro passa queimando pneus, em alguma esquina obscura um grito laminado corta o silêncio mórbido, uma criança urina no poste.
Adentro-me em meu recinto, tomo gotas incontadas de calmante e, livre de pensamentos, desmaio sobre o colchão.
Primeiro um tinir agudo, depois se batem com força. E a cada barulho metálico sobressalta-se minha alma sonolenta.
Um doce devaneio de que alguém vem para mim, logo seguido da consciência do tempo-espaço reais, irreversíveis: eu, sozinho, um quarto escuro, mobília antiga, paredes finas, uma porta leve a dar para um dos labirínticos corredores desse hotel barato; trinta e cinco andares de solidão. Hóspedes vem e vão, andares acima ouve-se um grito, talvez uma prostituta alcolizada, talvez uma gata no cio. Uma velha caixa d`agua ronrona em baixo contínuo e pneus de carros derrapam em cinzas sons.
Uma fresta de luz entra pela ampla e enferrujada janela de vidro, torna visível o quarto para meus olhos já acostumados à escuridão. Cerro as pálpebras para não ver, quero esquecer-me, refugiar-me na negritude dos vazios internos.
Reencosto o rosto no travesseiro, tento em nada pensar, vozes e imagens ecoam cada vez mais distantes e irreais, um latido lembra minha infância, o sono vem, adormeço...Por pouco tempo. Novamente uma porta se abre. Mais um sobressalto de esperança, novamente o sono se vai.
A cada tinir de chaves iludo-me de que chega uma visita. Em princípio o barulho se mistura com um início de sonho, mas o desejo de que seja real acaba por trair-me: temo que dormindo não a possa receber, e desperto.
Quem espero afinal? Uma amada antiga que anda perdida nas ruas de qualquer cidade grande, a voz otimista de uma mãe que já faleceu, um anjo que me anuncie um sentido plausível para todo o sofrimento ou console-me com promessas de um paraíso em que já não creio?
Vindas da porta, duas bichas gritam histericamente, os passos se aproximam para logo se afastarem, chegam-me os últimos ecos e novamente estou só.
Vou à janela, olho, mas o céu não tem estrelas, nenhum rouxinol canta a eternidade.
Vinte andares abaixo dorme um mendigo na calçada fria dessa noite invernal. Um carro passa queimando pneus, em alguma esquina obscura um grito laminado corta o silêncio mórbido, uma criança urina no poste.
Adentro-me em meu recinto, tomo gotas incontadas de calmante e, livre de pensamentos, desmaio sobre o colchão.
“April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.” T.S. Eliot
“Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” C. Drummond
“That corpse you planted last year in your garden, has it begun to sprout? Will it bloom this year?” T. S. Eliot
Em um mundo cujo imperativo é sorrir, estar triste é ver uma flor desabrochar no asfalto.
Bendito o dia em que acordamos sem vontade de acordar, bendito o dia que é como uma noite, benditas cortinas fechadas: é a vida reprimida escapando, grunhindo, protestando.
A tristeza é uma frágil histérica vienense, é preciso protegê-la, preservá-la, escutá-la- ainda que com as mãos. É urgente, sobretudo, deixá-la falar e ensiná-la a cantar. É preciso dar à luz a uma tristeza bailarina.
Não sejam tolos, não se culpem, joguem pela janela vosso obscurantismo new age, o yoga, a fluoxetina, o comercial de margarina, as correntes virtuais do facebook, toda essa baboseira americana bem-intencionada, latido ideológico, lixo publicitário a contaminar mesmo os que insistem em se crer filhos de 68, moderninhos alegrinhos.
O trânsito às seis da tarde, as buzinas engarrafadas e o sorriso de botox. “Chegue digno, exausto, cansado: stress é puro glamour. Mas não fume nem abra o uísque, lembre-se do fígado e das crianças. Não seja um looser a beber sozinho, saia com seu cartão de crédito. Em casos extremos compre um Wii, mas não fique quieto, movimente-se, faz bem para a saúde e para o mercado.”
A tristeza é a grande flagelada deste início de milênio e os reprimidos devem estar com a razão, senão, porque não tagarelariam? Se as histéricas balbuciaram os primeiros murmúrios da revolução feminista, que segredos nos contará esta donzela triste quando a ensinarmos a gargalhar?
Por isso vos conclamo: sejam as primeiras gotas de chuva e mandem às favas o sorriso do outdoor. O solo foi encoberto por néon, pneus e capas de revista, será preciso uma tempestade de gotas pesadas –todo um mar morto- para varrer esse excremento industrial.
Chorem, irmãos meus, sejam os primeiros a desabrochar neste longo e obtuso inverno. Bem sei, nascer é doloroso e “abril é o mais cruel dos meses”, sobretudo quando para tal é preciso furar e atravessar um estúpido deserto.
Mas vês este pinheiro que se ergue na noite estrelada? Não que possas alcançá-lo, mas todo passo conquistado será fruto da obstinação com que te erguerás sobre teu próprio eixo. Por isso, se te mandam ser feliz, não te entortes, chore. E se te mandam chorar, gargalhe. Fuja da cidadela e se erga às estrelas.
Cairás, mas terás visto o céu.
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.” T.S. Eliot
“Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” C. Drummond
“That corpse you planted last year in your garden, has it begun to sprout? Will it bloom this year?” T. S. Eliot
Em um mundo cujo imperativo é sorrir, estar triste é ver uma flor desabrochar no asfalto.
Bendito o dia em que acordamos sem vontade de acordar, bendito o dia que é como uma noite, benditas cortinas fechadas: é a vida reprimida escapando, grunhindo, protestando.
A tristeza é uma frágil histérica vienense, é preciso protegê-la, preservá-la, escutá-la- ainda que com as mãos. É urgente, sobretudo, deixá-la falar e ensiná-la a cantar. É preciso dar à luz a uma tristeza bailarina.
Não sejam tolos, não se culpem, joguem pela janela vosso obscurantismo new age, o yoga, a fluoxetina, o comercial de margarina, as correntes virtuais do facebook, toda essa baboseira americana bem-intencionada, latido ideológico, lixo publicitário a contaminar mesmo os que insistem em se crer filhos de 68, moderninhos alegrinhos.
O trânsito às seis da tarde, as buzinas engarrafadas e o sorriso de botox. “Chegue digno, exausto, cansado: stress é puro glamour. Mas não fume nem abra o uísque, lembre-se do fígado e das crianças. Não seja um looser a beber sozinho, saia com seu cartão de crédito. Em casos extremos compre um Wii, mas não fique quieto, movimente-se, faz bem para a saúde e para o mercado.”
A tristeza é a grande flagelada deste início de milênio e os reprimidos devem estar com a razão, senão, porque não tagarelariam? Se as histéricas balbuciaram os primeiros murmúrios da revolução feminista, que segredos nos contará esta donzela triste quando a ensinarmos a gargalhar?
Por isso vos conclamo: sejam as primeiras gotas de chuva e mandem às favas o sorriso do outdoor. O solo foi encoberto por néon, pneus e capas de revista, será preciso uma tempestade de gotas pesadas –todo um mar morto- para varrer esse excremento industrial.
Chorem, irmãos meus, sejam os primeiros a desabrochar neste longo e obtuso inverno. Bem sei, nascer é doloroso e “abril é o mais cruel dos meses”, sobretudo quando para tal é preciso furar e atravessar um estúpido deserto.
Mas vês este pinheiro que se ergue na noite estrelada? Não que possas alcançá-lo, mas todo passo conquistado será fruto da obstinação com que te erguerás sobre teu próprio eixo. Por isso, se te mandam ser feliz, não te entortes, chore. E se te mandam chorar, gargalhe. Fuja da cidadela e se erga às estrelas.
Cairás, mas terás visto o céu.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Persona

Há quem diga que sessões de psicanálise são cansativas e desgastantes.
Quanto a mim, o que me cansa é a vida. A farsa de todo o dia, este outro dentro de mim.
Exaspero-me com minha própria fala em um contínuo e obsessivo estranhamento. Palavras autônomas e automatizadas que não apenas me soam estranhas, mas também torpes, frívolas, pretensiosas e decadentes. Agasta-me que me identifiquem com elas; desespera-me que eu mesmo o faça.
Basta que haja fala para haver ressaca moral. Se bebo, falo mais e a ressaca é maior.
Queria era tirar esta roupa imaginária de rei, roupa invisível que a nada esconde.
O que seríamos para além das palavras? O rei está nu- mas que é o rei?
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Ao estilo Ayn Rand
Diz-se que Rilke amava as pessoas, penso que Rilke amava escrever. Sua generosidade é de quem olha do horizonte - ciente de não participar das ruas, mas feliz por encontrar em si mundo rico e valioso, ciente de que sendo fiel à solidão ajuda as pessoas mais que ao viver entre elas. E isto fazendo algo que amava - escrever. Escreve por amar a poesia, não as pessoas: mas percebe que sua poesia as ajuda: isto o depura de toda amargura, permitindo-lhe trilhar seu destino com generosidade e ternura.
Dos comentadores de Filosofia

É comum ouvir de astrônomos a declaração de sentimentos de paz, conforto e beleza que lhe surgem da contemplação e estudo das leis do universo e movimento de astros e galáxias. Nós mesmos podemos sentir este afeto de beatitude quando sob um céu estrelado de praia tentamos conceber a vastidão do cosmos e a incomensurabilidade numérica dos mundos possíveis.
O comentador de Filosofia age de modo semelhante.
Na tentativa de entendimento e contemplação de seu filósofo favorito se sente como o astrônomo que se deixa fascinar pela coerência e imensidão das leis do universo, esse estranho extâse de se saber pequeno diante de oceanos muito maiores.
E como lhe faz bem, a isto dedica a vida.
Por que haveríamos de condená-los?
domingo, 18 de outubro de 2009
A Pantera - Rilke

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
domingo, 9 de agosto de 2009

Hoje fui sozinho ao parque e fiz amizade com uma árvore (essa da foto, super linda). Seu tronco era incrivelmente anatômico, parece que até um suave encosto para cabeça ele tinha. E como não havia folhas em seus galhos, deixou o sol atravessá-la inteiro para mim, o que é ótimo no frio outonal de 10ºC que fazia. Quando a primavera voltar suas folhas crescerão e me dará sombra. Uma boa amiga esta que em troca nada pede.
Voltarei sempre, quer para ler, quer para fotografá-la em outras estações, ou mesmo para fugir da solidão.
É como dizia Rilke:
"Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu."
Curioso que quando escolhi Curitiba para morar o fiz pensando na natureza ao redor, e tenho percebido que não a usufruo tanto como gostaria e deveria. Espero que isto seja devidamente corrigido neste ano de 2009, e minha amiga árvore há de auxiliar-me nesta missão.
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