quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Insônia

Portas abrem-se para os desvãos de meu ser e, abertas, só servem de caminho a meu sono que se vai, deixando-me lúcido e só.
Primeiro um tinir agudo, depois se batem com força. E a cada barulho metálico sobressalta-se minha alma sonolenta.
Um doce devaneio de que alguém vem para mim, logo seguido da consciência do tempo-espaço reais, irreversíveis: eu, sozinho, um quarto escuro, mobília antiga, paredes finas, uma porta leve a dar para um dos labirínticos corredores desse hotel barato; trinta e cinco andares de solidão. Hóspedes vem e vão, andares acima ouve-se um grito, talvez uma prostituta alcolizada, talvez uma gata no cio. Uma velha caixa d`agua ronrona em baixo contínuo e pneus de carros derrapam em cinzas sons.
Uma fresta de luz entra pela ampla e enferrujada janela de vidro, torna visível o quarto para meus olhos já acostumados à escuridão. Cerro as pálpebras para não ver, quero esquecer-me, refugiar-me na negritude dos vazios internos.

Reencosto o rosto no travesseiro, tento em nada pensar, vozes e imagens ecoam cada vez mais distantes e irreais, um latido lembra minha infância, o sono vem, adormeço...Por pouco tempo. Novamente uma porta se abre. Mais um sobressalto de esperança, novamente o sono se vai.
A cada tinir de chaves iludo-me de que chega uma visita. Em princípio o barulho se mistura com um início de sonho, mas o desejo de que seja real acaba por trair-me: temo que dormindo não a possa receber, e desperto.
Quem espero afinal? Uma amada antiga que anda perdida nas ruas de qualquer cidade grande, a voz otimista de uma mãe que já faleceu, um anjo que me anuncie um sentido plausível para todo o sofrimento ou console-me com promessas de um paraíso em que já não creio?
Vindas da porta, duas bichas gritam histericamente, os passos se aproximam para logo se afastarem, chegam-me os últimos ecos e novamente estou só.
Vou à janela, olho, mas o céu não tem estrelas, nenhum rouxinol canta a eternidade.

Vinte andares abaixo dorme um mendigo na calçada fria dessa noite invernal. Um carro passa queimando pneus, em alguma esquina obscura um grito laminado corta o silêncio mórbido, uma criança urina no poste.
Adentro-me em meu recinto, tomo gotas incontadas de calmante e, livre de pensamentos, desmaio sobre o colchão.

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