quinta-feira, 1 de setembro de 2011

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers
.” T.S. Eliot

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” C. Drummond

That corpse you planted last year in your garden, has it begun to sprout? Will it bloom this year?” T. S. Eliot


Em um mundo cujo imperativo é sorrir, estar triste é ver uma flor desabrochar no asfalto.
Bendito o dia em que acordamos sem vontade de acordar, bendito o dia que é como uma noite, benditas cortinas fechadas: é a vida reprimida escapando, grunhindo, protestando.
A tristeza é uma frágil histérica vienense, é preciso protegê-la, preservá-la, escutá-la- ainda que com as mãos. É urgente, sobretudo, deixá-la falar e ensiná-la a cantar. É preciso dar à luz a uma tristeza bailarina.
Não sejam tolos, não se culpem, joguem pela janela vosso obscurantismo new age, o yoga, a fluoxetina, o comercial de margarina, as correntes virtuais do facebook, toda essa baboseira americana bem-intencionada, latido ideológico, lixo publicitário a contaminar mesmo os que insistem em se crer filhos de 68, moderninhos alegrinhos.
O trânsito às seis da tarde, as buzinas engarrafadas e o sorriso de botox. “Chegue digno, exausto, cansado: stress é puro glamour. Mas não fume nem abra o uísque, lembre-se do fígado e das crianças. Não seja um looser a beber sozinho, saia com seu cartão de crédito. Em casos extremos compre um Wii, mas não fique quieto, movimente-se, faz bem para a saúde e para o mercado.”
A tristeza é a grande flagelada deste início de milênio e os reprimidos devem estar com a razão, senão, porque não tagarelariam? Se as histéricas balbuciaram os primeiros murmúrios da revolução feminista, que segredos nos contará esta donzela triste quando a ensinarmos a gargalhar?
Por isso vos conclamo: sejam as primeiras gotas de chuva e mandem às favas o sorriso do outdoor. O solo foi encoberto por néon, pneus e capas de revista, será preciso uma tempestade de gotas pesadas –todo um mar morto- para varrer esse excremento industrial.
Chorem, irmãos meus, sejam os primeiros a desabrochar neste longo e obtuso inverno. Bem sei, nascer é doloroso e “abril é o mais cruel dos meses”, sobretudo quando para tal é preciso furar e atravessar um estúpido deserto.
Mas vês este pinheiro que se ergue na noite estrelada? Não que possas alcançá-lo, mas todo passo conquistado será fruto da obstinação com que te erguerás sobre teu próprio eixo. Por isso, se te mandam ser feliz, não te entortes, chore. E se te mandam chorar, gargalhe. Fuja da cidadela e se erga às estrelas.
Cairás, mas terás visto o céu.

2 comentários:

  1. 'Fuja da cidadela e se erga às estrelas.'
    Além de Gogh, isto é Chagall.
    Estás bem acompanhado.
    :)

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  2. companhia de homens submersos, né?

    - mas essa euforia de atravessar muros ancestrais, de bisbilhotar quintais interditados: esta alegria adolescente e travessa de coração batendo eterno e abismado: não terá valido tudo?
    Poderia dar mais que isto, a vida? mais que seu próprio desvelar-se? não é isto dar-se inteira em sua própria plenitude? -


    E engraçado isso do Chagall...faz todo sentido! Um Chagall onírico...um sol rosa, um sorriso...a realização de um desejo!...

    ..mas também desloca todo o sentido, porque Chagall é sonho, enquanto este Van Gogh é uma noite de revelações insones: transfigurada, real e sombria, mas de grandes promessas também!

    É bonito que pareça Chagall, de todo modo. :)
    ;**

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