sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Ser

Uma gota que,
em algum lugar do espaço-tempo,
foi lançada, individualizada, e,
deslumbrada, sobe, esperando,
atônita, a vertigi
                      nosa
                          queda
                              n'oceano

Carloca

Tu que mudaste tantas vezes a hora do sol se pôr,
Cheia de olhos, gestos, ondas, ventania,
Invadiste e tragaste nossa mansa calmaria...

Arrancou-nos da Terra da Monotonia,
Afogando doce morfina em cada suspiro,
Na miríade onírica da vida...

Em seu redemoinho guiou-nos pela mão,
Mas na última curva da volta,
Em derradeira agonia...

Findou-se a fantasia.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Insônia

Portas abrem-se para os desvãos de meu ser e, abertas, só servem de caminho a meu sono que se vai, deixando-me lúcido e só.
Primeiro um tinir agudo, depois se batem com força. E a cada barulho metálico sobressalta-se minha alma sonolenta.
Um doce devaneio de que alguém vem para mim, logo seguido da consciência do tempo-espaço reais, irreversíveis: eu, sozinho, um quarto escuro, mobília antiga, paredes finas, uma porta leve a dar para um dos labirínticos corredores desse hotel barato; trinta e cinco andares de solidão. Hóspedes vem e vão, andares acima ouve-se um grito, talvez uma prostituta alcolizada, talvez uma gata no cio. Uma velha caixa d`agua ronrona em baixo contínuo e pneus de carros derrapam em cinzas sons.
Uma fresta de luz entra pela ampla e enferrujada janela de vidro, torna visível o quarto para meus olhos já acostumados à escuridão. Cerro as pálpebras para não ver, quero esquecer-me, refugiar-me na negritude dos vazios internos.

Reencosto o rosto no travesseiro, tento em nada pensar, vozes e imagens ecoam cada vez mais distantes e irreais, um latido lembra minha infância, o sono vem, adormeço...Por pouco tempo. Novamente uma porta se abre. Mais um sobressalto de esperança, novamente o sono se vai.
A cada tinir de chaves iludo-me de que chega uma visita. Em princípio o barulho se mistura com um início de sonho, mas o desejo de que seja real acaba por trair-me: temo que dormindo não a possa receber, e desperto.
Quem espero afinal? Uma amada antiga que anda perdida nas ruas de qualquer cidade grande, a voz otimista de uma mãe que já faleceu, um anjo que me anuncie um sentido plausível para todo o sofrimento ou console-me com promessas de um paraíso em que já não creio?
Vindas da porta, duas bichas gritam histericamente, os passos se aproximam para logo se afastarem, chegam-me os últimos ecos e novamente estou só.
Vou à janela, olho, mas o céu não tem estrelas, nenhum rouxinol canta a eternidade.

Vinte andares abaixo dorme um mendigo na calçada fria dessa noite invernal. Um carro passa queimando pneus, em alguma esquina obscura um grito laminado corta o silêncio mórbido, uma criança urina no poste.
Adentro-me em meu recinto, tomo gotas incontadas de calmante e, livre de pensamentos, desmaio sobre o colchão.
April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers
.” T.S. Eliot

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” C. Drummond

That corpse you planted last year in your garden, has it begun to sprout? Will it bloom this year?” T. S. Eliot


Em um mundo cujo imperativo é sorrir, estar triste é ver uma flor desabrochar no asfalto.
Bendito o dia em que acordamos sem vontade de acordar, bendito o dia que é como uma noite, benditas cortinas fechadas: é a vida reprimida escapando, grunhindo, protestando.
A tristeza é uma frágil histérica vienense, é preciso protegê-la, preservá-la, escutá-la- ainda que com as mãos. É urgente, sobretudo, deixá-la falar e ensiná-la a cantar. É preciso dar à luz a uma tristeza bailarina.
Não sejam tolos, não se culpem, joguem pela janela vosso obscurantismo new age, o yoga, a fluoxetina, o comercial de margarina, as correntes virtuais do facebook, toda essa baboseira americana bem-intencionada, latido ideológico, lixo publicitário a contaminar mesmo os que insistem em se crer filhos de 68, moderninhos alegrinhos.
O trânsito às seis da tarde, as buzinas engarrafadas e o sorriso de botox. “Chegue digno, exausto, cansado: stress é puro glamour. Mas não fume nem abra o uísque, lembre-se do fígado e das crianças. Não seja um looser a beber sozinho, saia com seu cartão de crédito. Em casos extremos compre um Wii, mas não fique quieto, movimente-se, faz bem para a saúde e para o mercado.”
A tristeza é a grande flagelada deste início de milênio e os reprimidos devem estar com a razão, senão, porque não tagarelariam? Se as histéricas balbuciaram os primeiros murmúrios da revolução feminista, que segredos nos contará esta donzela triste quando a ensinarmos a gargalhar?
Por isso vos conclamo: sejam as primeiras gotas de chuva e mandem às favas o sorriso do outdoor. O solo foi encoberto por néon, pneus e capas de revista, será preciso uma tempestade de gotas pesadas –todo um mar morto- para varrer esse excremento industrial.
Chorem, irmãos meus, sejam os primeiros a desabrochar neste longo e obtuso inverno. Bem sei, nascer é doloroso e “abril é o mais cruel dos meses”, sobretudo quando para tal é preciso furar e atravessar um estúpido deserto.
Mas vês este pinheiro que se ergue na noite estrelada? Não que possas alcançá-lo, mas todo passo conquistado será fruto da obstinação com que te erguerás sobre teu próprio eixo. Por isso, se te mandam ser feliz, não te entortes, chore. E se te mandam chorar, gargalhe. Fuja da cidadela e se erga às estrelas.
Cairás, mas terás visto o céu.