quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Persona





Há quem diga que sessões de psicanálise são cansativas e desgastantes.
Quanto a mim, o que me cansa é a vida. A farsa de todo o dia, este outro dentro de mim.
Exaspero-me com minha própria fala em um contínuo e obsessivo estranhamento. Palavras autônomas e automatizadas que não apenas me soam estranhas, mas também torpes, frívolas, pretensiosas e decadentes. Agasta-me que me identifiquem com elas; desespera-me que eu mesmo o faça.
Basta que haja fala para haver ressaca moral. Se bebo, falo mais e a ressaca é maior.

Queria era tirar esta roupa imaginária de rei, roupa invisível que a nada esconde.
O que seríamos para além das palavras? O rei está nu- mas que é o rei?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ao estilo Ayn Rand

Diz-se que Rilke amava as pessoas, penso que Rilke amava escrever. Sua generosidade é de quem olha do horizonte - ciente de não participar das ruas, mas feliz por encontrar em si mundo rico e valioso, ciente de que sendo fiel à solidão ajuda as pessoas mais que ao viver entre elas. E isto fazendo algo que amava - escrever. Escreve por amar a poesia, não as pessoas: mas percebe que sua poesia as ajuda: isto o depura de toda amargura, permitindo-lhe trilhar seu destino com generosidade e ternura.

Dos comentadores de Filosofia




É comum ouvir de astrônomos a declaração de sentimentos de paz, conforto e beleza que lhe surgem da contemplação e estudo das leis do universo e movimento de astros e galáxias. Nós mesmos podemos sentir este afeto de beatitude quando sob um céu estrelado de praia tentamos conceber a vastidão do cosmos e a incomensurabilidade numérica dos mundos possíveis.
O comentador de Filosofia age de modo semelhante.
Na tentativa de entendimento e contemplação de seu filósofo favorito se sente como o astrônomo que se deixa fascinar pela coerência e imensidão das leis do universo, esse estranho extâse de se saber pequeno diante de oceanos muito maiores.
E como lhe faz bem, a isto dedica a vida.
Por que haveríamos de condená-los?